Cannabis
A cannabis contém THC e CBD, atua no sistema endocanabinoide e pode ter interações relevantes com alguns antirretrovirais, especialmente inibidores da protease e da integrase.
O que é?
A cannabis vem da planta Cannabis sativa e contém múltiplos compostos ativos, sendo os mais relevantes o THC (tetraidrocanabinol, responsável pelos efeitos psicoativos) e o CBD (canabidiol, sem efeitos psicoativos relevantes). Ela é metabolizada principalmente pelas enzimas hepáticas CYP3A4 e CYP2C19, as mesmas que processam muitos antirretrovirais.
Como se consome?
- Fumada: cigarros, pipe ou bong
- Vaporizada: dispositivos que aquecem sem combustão
- Comestíveis: biscoitos, gomas, óleos e infusões
- Óleos e tinturas: via sublingual ou misturada em alimentos
As formas não fumadas reduzem o risco de dano pulmonar e podem permitir melhor controle da dose.
Como atua?
THC e CBD atuam no sistema endocanabinoide, um sistema de sinalização presente em todo o corpo. Ao se ligarem aos receptores CB1 (principalmente no sistema nervoso central) e CB2 (no sistema imune e em tecidos periféricos), podem produzir:
- alteração da percepção sensorial e do tempo
- relaxamento muscular e sedação
- aumento do apetite
- euforia ou sensação de bem-estar em doses baixas
- ansiedade, paranoia ou psicose em doses altas ou em pessoas sensíveis
- efeitos na memória de curto prazo
Os efeitos variam bastante de acordo com a via de administração, a concentração de THC, a tolerância individual e o contexto.
Interações com antirretrovirais
As interações entre cannabis e antirretrovirais acontecem principalmente porque compartilham as mesmas enzimas hepáticas (CYP3A4 e CYP2C19). Dependendo do medicamento, a cannabis pode aumentar ou diminuir os níveis do antirretroviral no sangue.
A cannabis pode AUMENTAR os níveis de alguns ARV
Níveis mais altos do antirretroviral podem causar:
- dano hepático
- náusea e vômito mais intensos
- arritmias cardíacas
- maior toxicidade geral
A cannabis pode DIMINUIR os níveis de alguns ARV
Níveis mais baixos do antirretroviral podem causar:
- menor eficácia do tratamento
- risco de resistência ao HIV
Medicamentos que exigem mais cuidado
| Grupo / medicamento | Risco de interação | Observações |
|---|---|---|
| Inibidores da protease (IP): lopinavir/ritonavir, atazanavir, darunavir | Alto | Via CYP3A4 compartilhada; pode alterar os níveis do ARV nas duas direções |
| INNTI: efavirenz, etravirina | Moderado-Alto | Interação por CYP3A4 e CYP2C19; efavirenz pode reduzir os níveis de canabinoides |
| Inibidores da integrase: elvitegravir, bictegravir | Moderado | Elvitegravir (potencializado com cobicistate) tem maior potencial de interação |
| Maraviroque | Moderado | É metabolizado por CYP3A4; seus níveis podem ser afetados |
A evidência atual é limitada e os estudos em humanos ainda são escassos. São necessárias mais pesquisas, especialmente com inibidores da protease e da integrase.
Redução de riscos
- usar a menor quantidade possível e com a menor frequência possível
- evitar produtos com concentrações muito altas de THC
- preferir formas não fumadas
- manter regularidade com a TARV
- informar a equipe de saúde sobre o uso de cannabis
- evitar combinar com álcool, se possível
- ter mais cuidado se você usa inibidores da protease ou efavirenz
Sinais de alerta
Os sinais abaixo podem sugerir interação com a TARV ou reação adversa:
- náusea ou vômito persistentes
- tontura ou sonolência excessiva
- palpitações ou dor no peito
- confusão ou ansiedade intensa que não melhora
Quando buscar atendimento médico?
- dor ou pressão no peito
- dificuldade para respirar
- desmaio ou perda de consciência
- confusão grave ou desorientação
- sintomas que te preocupam ou parecem fora do comum
O que diz a evidência?
As interações entre cannabis e antirretrovirais são possíveis e já foram descritas de forma preliminar, especialmente com inibidores da protease e alguns inibidores da integrase. A maior parte dos estudos disponíveis é in vitro ou em séries pequenas de casos. A evidência clínica robusta ainda é limitada, mas a precaução é justificável, especialmente em tratamentos com margem terapêutica estreita.
Informar a equipe de saúde permite acompanhamento adequado e ajustes, se necessário.